Você já parou para pensar se está falando “RÉcorde” ou “reCOrde”? A dúvida, que parece pequena, ganhou repercussão nacional após o Ministério Público Federal (MPF) em Minas Gerais ajuizar uma ação civil pública contra a TV Globo, sob a alegação de que a emissora estaria pronunciando a palavra “recorde” de forma incorreta.
A ação foi movida pelo procurador Cléber Eustáquio Neves, que pede indenização de R$ 10 milhões. Na petição inicial, protocolada no último dia 29, ele afirma que repórteres e apresentadores estariam utilizando a pronúncia “RÉ-corde”, o que, segundo ele, contraria a norma culta da língua portuguesa e influencia telespectadores a reproduzir o mesmo padrão.
Mas afinal: qual é a pronúncia correta da palavra “recorde”?
A explicação gramatical
Do ponto de vista da gramática normativa, que dita as regras oficiais do idioma, a pronúncia correta é re-COR-de. A palavra é classificada como paroxítona, ou seja, tem a penúltima sílaba como a mais forte.
De acordo com Rafaella Coelho, professora de língua portuguesa da Passei Cursos, a regra de acentuação é o principal indicativo da fala correta.
Se a pronúncia fosse “RÉ-corde”, a palavra obrigatoriamente deveria receber acento gráfico, enquadrando-se na regra das proparoxítonas, que são sempre acentuadas.
“Gramaticalmente falando, a pronúncia seria recorde [reCORde], porque é uma palavra paroxítona. Se fosse [RÉcorde], o ‘e’ seria acentuado, porque todas as proparoxítonas são acentuadas e, obviamente, a pronúncia se justificaria por causa do acento”, explica a docente.
No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), a palavra aparece sem acento, confirmando que a sílaba tônica é “cor”.
Por que tanta gente fala “RÉcorde”?
Se a norma culta é clara, por que a outra forma se espalhou, inclusive na televisão?
Segundo a especialista, há influência do inglês record, cuja pronúncia enfatiza a primeira sílaba.
“Essa questão do estrangeirismo, o fato de a gente ter adotado, há uma tendência na hora do aportuguesamento dessa palavra a gente trazer características da palavra de origem”, pontua Rafaella.
Além disso, existe uma tendência no português brasileiro de transformar certas palavras em proparoxítonas na fala cotidiana.
“A gente faz isso com rubrica, e as pessoas pronunciam ‘rúbrica’. A gente faz isso com a palavra heterossexual, todo mundo chama ‘HÉTEROssexual’, mas, nesse caso, a sílaba na composição da palavra é a última”, exemplifica a professora.

E no vestibular, como funciona?
Se você está se preparando para vestibular ou concurso, atenção: em questões objetivas sobre acentuação e tonicidade, vale o que está no registro oficial.
“Se você fizer, por exemplo, uma prova, um exame de um concurso e a banca te perguntar sobre acentuação e tonicidade das palavras, você precisa saber qual é a escrita que é registrada no vocabulário oficial de língua portuguesa. E está registrado como recorde, sem acento”, orienta.
Já em exames como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a abordagem pode ser diferente.
“Muito provavelmente o texto falaria dessa variação da utilização da palavra e a justificativa seria justamente essa dinamicidade da língua”, completa a educadora.
Comunicação e o papel da mídia
A discussão também envolve o papel da imprensa na formação da fala pública. Para Rafaella, a variação na pronúncia não altera o sentido da palavra.
“O fato de eu falar ‘RÉcorde’ ou ‘reCORde’ não vai ter influência nenhuma na semântica, na construção do sentido, porque as duas palavras vão significar a mesma coisa”, afirma.
Sobre a postura da mídia, a especialista destaca que grandes veículos muitas vezes refletem a forma como a sociedade se comunica.
“Se a massa se comunica dessa forma, há uma probabilidade da mídia fazer esse recorte e também mostrar a mídia como um espelho de como a população se comunica. Para fazer com que esse telespectador fique mais próximo desse contexto de comunicação, é muito mais fácil que eu faça essa adaptação”, finaliza.